“E A ARTE, PARA QUE SERVE?” - Por Nando Zâmbia

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Olá, vamos para mais um dedo de prosa, uma conversa deliciosa, assim como em nosso último encontro aqui? Vamos falar sobre inquietações que me movem e, talvez, também te movam? Desde o último texto publicado nesta coluna, me perguntei por vários momentos sobre qual seria minha próxima escrita, qual seria o assunto desse nosso segundo encontro. Esse projeto de escrita se propõe a rabiscar, ao longo do tempo; aqui nenhuma certeza é bem-vinda, nenhuma pressa, nenhum atropelamento se faz necessário. O nosso papo é sobre passos, urgências filosóficas, caminhos a serem percorridos, para prospectar nossa cidade, a arte e seus desdobramentos… Vamos juntos?

Nos últimos 25 anos, dia sim e dia também, estive completamente entregue ao mundo das artes e da cultura! Desde que dei meus primeiros passos na arte, no auditório do Centro Integrado Luiz Navarro de Brito, em 1999, quando, no intervalo de cada aula, eu corria para ensaiar e encontrar pessoas que me faziam sonhar para além do mundo que se apresentava, me vi repleto de vida, desejo e fome de futuro. Como diz Roque Lázaro, é preciso “celebrar a liberdade interna que só a arte é capaz de edificar”!

O teatro que vi ser feito vivo nas apresentações do “I Festival de Teatro Em Destaque”, em 1998, me convidou para uma jornada, uma caminhada de liberdade, mesmo sem saber o que isso significava. Na realidade, não sabemos muito das coisas que vivemos enquanto estamos vivendo; o tempo é que nos mostra que andamos, e é o caminho que nos mostra as marcas dos pés no chão. Ou seja, sem tempo, sem caminhada e sem pegadas, não há de se ter história.

Esse ¼ de século de histórias e estórias lançou-me dezenas, centenas de perguntas, além de angústias, experiências e urgências. O teatro me fez viver, me deu realidades para repensar o meu mundo real prático. Do teatro estudantil, amador, acadêmico, profissional… muitas foram as questões: “o que é arte e cultura?”; “o que são Teatro Colaborativo, Pós-Dramático, Contemporâneo?”; “sou ator ou atuante?”; “texto dramático ou lírico poético?”. A jornada foi grande e, felizmente, muita coisa foi vivida, absorvida, e todas elas me fazem seguir. Eu me pego aqui escrevendo e rememorando momentos, pessoas, ensaios, crises; o exercício da escrita pode ser um caminho sem volta, e espero sempre estarmos juntos para esse deleite.

Lembrar de tantas coisas me traz de volta ao hoje, ao agora, como se eu fosse catapultado do campo da memória direto para a realidade, essa que vivemos. E aí é que as angústias deixam de ser questões e passam a ser assombros. Um deles, em especial, me assola neste momento, e é sobre esse assombro que quero construir, com vocês, alguma perspectiva: E A ARTE, PARA QUE SERVE? Parece uma crise existencial, daquelas que terminam a vida e a resposta não vem, mas calma, não precisamos responder a essa pergunta agora; refletir já é o bastante. Essa questão cresce a cada dia. Dicotomicamente, entendo a sua presença e necessidade, mas a realidade coloca uma pulga atrás da orelha, um incômodo que vai crescendo à medida que os anos vão passando e existe uma troca de valores entre o ser e o fazer artístico, entre a prática vazia e a necessidade de viver.

É possível que você queira abandonar a leitura deste texto agora, e entenderei, pois chegamos a um ponto em que a saudade de um tempo, o carinho de outrora, a febre juvenil noventista vai falar e parecer que tudo o que era feito antes era melhor. Mas só parece. A questão é mais profunda. Repito: E A ARTE, PARA QUE SERVE?

Segundo o poeta e ator já citado, Roque Lázaro, a arte é capaz de liberar um espaço interno, subjetivo, psicológico, que pode nos lançar no entendimento de “outros mundos”, outros “eus”, “outras vidas”, e isso pode nos trazer paz, ira, saúde, saudade, dor, consciências… Isso pode nos libertar de nós mesmos. Então, quando a arte caminha para ser somente entretenimento, o mais raso que isso possa ser, quando ela deixa de atravessar subjetivamente o ser humano e passa a esfregar uma perspectiva de sucesso financeiro como único viés, ao que ela serve? Não, não estou romantizando a falta de dinheiro, não estou contemplando a miséria a que nós artistas estamos impelidos como se fosse um castigo. Não, definitivamente não estou!

A base de tudo é o capital. Não há a possibilidade de desvincularmos o que vivemos do poder, do financeiro, da mentira da felicidade do ter. O dinheiro não é só detalhe, mas pode ser o único detalhe quando o produto artístico nada tem a ver com o ser humano. Precisamos discutir essa escravidão ao capital. A arte vem perdendo o valor, vem perdendo o sentido, trocada por alguns punhados de reais ou de favores. Executa-se qualquer coisa a qualquer preço, ou até gratuitamente, sem preparo, sem tempero, só uma massa amorfa embrulhada em papel de presente cheio de sentidos forjados na idiotia e presunção de que tudo é e tudo pode.

Quem sobe ao palco, quem está na educação, quem entra na gestão, precisa urgentemente consumir aquilo que oferecerá. Precisa ter a responsabilidade de entender que arte pode salvar vidas. Mas não estou falando do assistencialismo que sufoca tantas produções; estou falando de humanidade. Não basta amontoar para quantificar, é preciso diluir em pílulas diárias aquilo que pode dar sobrevida eterna para quem faz e para quem consome.

Precisamos abrir um diálogo sobre o que estamos construindo, sobre as responsabilidades de quem propõe e de quem consome. Afinal, culpar somente o público é esquecer que as notas que emocionam a todos emocionaram primeiro quem as tocou; é esquecer que aquele texto que atravessou séculos angustiou primeiro quem o escreveu; que a fotografia, as artes plásticas, a dança, a performance, o cinema, primeiro explodiram na mente de quem, não sendo capaz de conter, submergiu em criação e trouxe ao mundo aquilo que nem tinha nome ou forma antes de existir.

Como espectadores, devemos também nos perguntar se aquilo que consumimos não está nos anestesiando e nos distanciando da nossa humanidade; se estamos dando espaço para que as coisas criem eco em nós; se não precisamos de mais tempo para regurgitarmos centenas de estímulos; se não é diante da presencialidade, da pausa, do estar de verdade que alguma mágica se fará de dentro para fora, de um espaço interno que nos liberte.

Precisamos, como espectadores e artistas, de um egoísmo artístico que nos refaça e nos reconstrua internamente para uma fruição que preencha lacunas entre a arte e o espectador, entre a vida e a realidade. Precisamos parar de abrir mão daquilo que nos completa, forja e amadurece. É urgente frearmos o “fast food artístico” e nos conscientizarmos de que deixar desaparecer parte da nossa essência é apagar um tanto de nós no mundo e na história.

Foto: Divulgação
Por: Nando Zâmbia

Nando Zâmbia é ator, diretor, iluminador e produtor negro, é formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), no Brasil, e pela Universidade de Évora (UE), em Portugal. Iniciou sua carreira no interior da Bahia, em Alagoinhas, no ano de 1999, em âmbito estudantil, até ingressar no NATA – Núcleo Afro-brasileiro de Teatro de Alagoinhas. Com espetáculos desenvolvidos como ator, já se apresentou em alguns países com seu primeiro solo intitulado “Irumalé Ayê” (Brasil, Portugal, Grécia, Itália e Alemanha).




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