Em entrevista, Benedito Vieira defende um debate mais amplo sobre a redução da escala e aponta possíveis impactos para as empresas e colaboradores
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| Foto: Divulgação |
Na manhã desta quarta-feira (14), o presidente do Sindicato do Comércio de Alagoinhas (SICOMERCIO), Benedito Vieira, concedeu entrevista ao programa Canal Aberto, da Rádio 93 FM, apresentado por Val Meireles, Miranda de Lima e Ícaro Pereira. Durante a conversa, foram abordados temas como o movimento do comércio local, as perspectivas do empresariado, as ações do poder público voltadas ao setor e a proposta de mudança na jornada de trabalho, assunto que gerou maior repercussão e engajamento com os ouvintes.
Ao comentar o debate sobre a alteração da carga horária semanal, Benedito considerou que o momento não é o mais adequado para discutir a medida. Segundo ele, a proximidade do período eleitoral pode comprometer a profundidade das discussões e acirrar a divisão de opiniões na sociedade.
“Lamentavelmente, a gente percebe esse cenário de discussão de um tema tão importante em um momento político-eleitoral, envolvendo a gestão em nível nacional. Acredito que isso precipita o debate e alimenta oportunistas que querem dividir a sociedade entre os que aprovam e os que reprovam a medida”, pontuou. “O que interessa a nós, empresários, é uma discussão que não afete tanto a nossa classe e, principalmente, os trabalhadores”, acrescentou.
Debate amplo e diálogo com a sociedade
Durante a entrevista, o dirigente do sindicato patronal afirmou estar aberto ao diálogo com quem possui opiniões divergentes. No entanto, avaliou que o empresariado não tem encontrado espaço suficiente para apresentar sugestões e discutir alternativas com os demais segmentos da sociedade.
“Essa medida precisa de uma discussão ampla e profunda, não de uma mudança constitucional abrupta. Requer tempo de debate com a sociedade, e esse tempo não foi dado. As relações de trabalho são complexas e precisam ser analisadas setor por setor. A realidade de quem trabalha na saúde, por exemplo, é completamente diferente da de quem atua no comércio. E há mais de 2 mil profissões. Não podemos utilizar uma escala padrão para todos. Essa pauta não pode ser tratada de forma eleitoreira”, afirmou o presidente do SICOMERCIO.
Vieira também questionou os possíveis impactos financeiros da redução da jornada para as empresas. Na avaliação dele, a mudança poderá elevar os custos operacionais e dificultar a manutenção dos postos de trabalho, caso não haja medidas compensatórias por parte do governo.
“Além de prejudicar as empresas, como é que você reduz em 10% a sua folha de pagamento, com esse aumento de custos, e terá que repor essas vagas sem uma contrapartida do governo no que diz respeito à nossa contribuição por funcionário, que corresponde a cerca de 100% do valor pago? Era muito melhor adaptar o salário à altura do que se imagina. Aumenta-se o salário além da inflação e mantém-se a relação de trabalho”, declarou.
Impactos para diferentes categorias profissionais
O presidente do sindicato também contestou o argumento de que a redução da jornada permitiria aos trabalhadores passar mais tempo com suas famílias. Para ilustrar seu posicionamento, citou profissionais cujas atividades exigem longos períodos de deslocamento ou escalas específicas, como caminhoneiros e trabalhadores de plataformas de petróleo.
“Imagine um caminhoneiro que sai do Rio Grande do Sul para o Ceará. Quanto tempo ele levaria para ir e voltar à sua origem? Como vai ficar mais tempo com a família se tem dez dias de viagem? Ele terá que ficar parado em qualquer lugar ou cidade para dormir? E quem trabalha em plataforma de petróleo, com 15 dias corridos de trabalho? Como ficaria essa jornada?”, questionou.
Benedito afirmou não concordar integralmente com o argumento do descanso familiar e defendeu que as particularidades de cada atividade sejam consideradas na definição das jornadas, garantindo espaço para que trabalhadores e empregadores discutam as condições de trabalho e descanso.
Autoatendimento avança no comércio de Alagoinhas
Outro ponto destacado durante a entrevista foi a expansão dos caixas de autoatendimento no comércio local, especialmente nos supermercados. Para Benedito Vieira, a substituição de caixas convencionais por equipamentos automatizados está relacionada, entre outros fatores, à busca dos empresários por alternativas para conter o aumento das despesas operacionais.
“Nunca se viu tanta implantação de caixas de autoatendimento em nosso município. Aqui, há supermercados que substituíram de dez a 15 caixas tradicionais por equipamentos de autoatendimento. Muitos empresários estão recorrendo a essa tecnologia porque sabem que, com a previsão de aprovação da jornada 5x2, o custo mensal da folha de pagamento poderá aumentar cerca de 15%, tornando a manutenção do autoatendimento mais viável”, afirmou.
Na sequência, o representante empresarial voltou a criticar a forma como a proposta vem sendo discutida e questionou os possíveis efeitos da mudança sobre a organização das empresas. Ele também levantou dúvidas sobre situações envolvendo faltas injustificadas e feriados em uma semana de trabalho.
“Falando sobre esse projeto da jornada 5x2, imagine se, porventura, o trabalhador faltar um dia na semana e não justificar. Como fica a semana? O empresário terá que descontar três dias? E se nessa semana tiver um feriado?”, indagou.
Benedito defende discussão sobre redução da jornada
Ao concluir sua participação, Vieira ressaltou que não é contrário à redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, mas defendeu que a proposta seja amplamente debatida antes de qualquer mudança. Segundo ele, os empresários brasileiros não se posicionaram, de maneira geral, contra a diminuição da carga horária, mas reivindicam que a medida considere as particularidades de cada setor.
“Querem reduzir essas quatro horas? Bora! Mas, primeiramente, precisamos desmistificar essa ideia de escala 6x1, pois, na prática, existem diferentes formas de relações de trabalho. Aqui em Alagoinhas, por exemplo, o trabalhador atua de segunda a sexta-feira e aos sábados até o meio-dia, o que, na avaliação dele, corresponde a uma dinâmica diferente da escala chamada de 6x1”, declarou.
Como alternativa, o presidente do SICOMERCIO sugeriu discutir mudanças no horário de funcionamento das lojas durante a semana. Uma das possibilidades, segundo ele, seria alterar a abertura dos estabelecimentos das 8h para as 9h, mantendo o encerramento às 18h.
“Uma das alternativas que trago é a alteração do horário de funcionamento do comércio durante a semana: em vez de funcionar das 8h às 18h, passar a abrir das 9h às 18h. O que não posso concordar é que uma discussão tão importante como essa tenha surgido justamente em cima de uma eleição acirrada, sendo que houve quase quatro anos de mandato para que o assunto fosse discutido”, concluiu.
