As eleições na França foram um deus nos acuda para o globalista Emmanuel Macron. Por sua vez, Trump voltaria à Casa Branca se a eleição fosse hoje. No primeiro turno das eleições municipais, o PT foi o grande derrotado, ainda mais considerando que é o partido do presidente da República, diga-se, com alto grau de rejeição. As pautas identitárias desapareceram das campanhas de esquerda e voltaram para o armário. A cultura woke também foi rejeitada no cinema e até a Rede Globo engata a marcha da moderação e flerta com os evangélicos sorrateiramente.
Não existe nada de errado em lutar pelos direitos das mulheres, gays e negros. O conteúdo está correto, o pecado está na forma, na lacração. Para quem enxerga a questão sem paixões e sem interesses políticos, entende que existem machismo, racismo e homofobia estruturais, algo que os conservadores negam. Também é verdade que a Bíblia é, de fato, machista e homofóbica, algo que os conservadores não admitem, pois a têm como a palavra de Deus e não como um livro escrito por humanos – falhos – inspirados por Deus, como de fato é.
O problema maior do identitarismo é que, ao se converter em tábua de salvação da esquerda corrupta, deslocou assuntos importantes e de interesse geral para a periferia do debate público, como a desigualdade social, a melhoria da educação e da saúde, a empregabilidade, o socorro aos moradores de rua, aos usuários de drogas, às pessoas com deficiência e com distúrbios mentais, a universalização e democratização da cultura e, sobretudo, o desenvolvimento econômico e a ética no serviço público.
Apegar-se ao desenvolvimento econômico e à ética pública fez com que a direita crescesse em todo o canto. A pauta do debate público voltou à sua ordem eficiente: primeiro os elementos básicos e gerais da vida, depois as especificidades. A pauta identitária é uma especificidade, por isso tem que ocupar uma posição secundária, mas não menos importante ou menos urgente. Por isso, o que era tábua de salvação da esquerda corrupta passou a ser uma pedra amarrada em seus pés.
A forma como ela tentou sequestrar o imaginário das massas, que tomou o nome de lacração, era, na realidade, uma diminuição do valor do masculino. Era um movimento ressentido, como advertia Nietzsche, niilismo ressentido. O movimento woke colocava mulheres e gays no papel de personagens icônicos masculinos, mas só conseguiu antipatia – seguiu a receita de Derrida que parecia ótima na teoria. O resultado foi fracasso em bilheteira e nenhum avanço concreto para as ditas minorias. Afinal, qual programa foi criado com esse fim, em quase dois anos de governo Lula, que tem a maioria dos ministros formada por homens e brancos? O que foi feito nas eleições para aumentar o número de eleitos oriundos da parcela de gays, mulheres e negros? Tudo muito verborágico. Muita narrativa e pouca ação.
Identifica-se cada vez mais que as pautas prevalentes são aquelas de interesse geral, destacando-se a economia, a saúde, a educação, o esporte, a cultura, o meio ambiente (sem histeria) e a segurança. O PT já soltou as mãos de negros, gays e mulheres. Não precisava soltá-las, mas, para o PT, pragmático ao extremo, é melhor evitar desgaste. Só que, nos aspectos socioeconômicos citados como prioridade extrema, ele já virou vidraça há muito tempo. Na realidade, é a grande vidraça. E as mulheres, gays e negros vão entender que se aliar à esquerda corrupta e ineficiente é um mau negócio para todos, até para eles mesmos. E o que devem fazer? Mostrar que sua pauta é relevante para todos, para uma sociedade mais justa, lutar por soluções concretas e entender que tudo é processual, principalmente quando se trata de mudança cultural.
Foto: Miguel Schincariol/AFPPor: Paulo Dias - Colunista do Portal Pereira News
